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segunda-feira, 7 de agosto de 2017


E por vezes percebemos que não pertencemos a lugar nenhum...

sexta-feira, 4 de agosto de 2017


a noite feita, ela toda, em segredo
passando da mão direita para a esquerda
e ficar acordado enquanto se adormece
e acordando se se vê que está escrito
de cabeça para baixo
que o mundo de tão lento não se encurva
que tudo está no ovo
e o ovo não aquece nem arrefenta
e que nada está onde é suposto
e o lenço é ar apenas na mão do mágico
e nada se encontra agora onde se encontra
nem a cabeça
nem a caneta
nem a palavra certa para ser escrita
há duzentos ou trezentos anos
quando eu era criança algures noutro alfabeto
e escrevia alto numa espécie de caderno
sem páginas de um lado e de outro
e sem palavra nenhuma
sobretudo

Herberto Helder

terça-feira, 1 de agosto de 2017



Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul de papel, num instante
imagino uma linda gaivota a voar no céu...

sexta-feira, 28 de julho de 2017


Singular delicadeza...


Tudo me diz de ti.
Estou na roda aberta dos afectos,
no círculo vermelho
onde o último pássaro voou livre.
És da minha pele e ardes-me
no sangue atormentado.
Nenhuma outra voz me serve,
nem noutra boca beberei.
Escrevo o teu nome nos caminhos
e procuro-te onde a terra adormece
o sono das pedras,
o esquecimento do tempo,
o vazio olhar das estátuas.
Procuro-te no corpo que me deixas
como casca da tua maravilha.

Edgardo Xavier

A cor do invisível


Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana

quinta-feira, 27 de julho de 2017



Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga

terça-feira, 25 de julho de 2017

Liberdade



Ah! como queria ser gaivota

E ser-me num voo singelo,
Corpo leve onde só alma nota
Este meu silencioso apelo
De ser livre e partir.

Partir para lugar nenhum
Ou para todos os lugares...

Ah! como queria olhar sobre mares
E deixar-me cair...
E num grito refrescante voltar a subir.

Luana Lua

quinta-feira, 20 de julho de 2017

'Matura Idade'


E por Vezes
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira

quarta-feira, 19 de julho de 2017



Sendo pequenas as minha asas, quando fecho os olhos e escuto,
parecem-me enormes...
E quando tiro os pés do chão, o único peso que sinto é o do
coração...

terça-feira, 18 de julho de 2017




Por delicadeza
.
Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei
.
Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado
.
Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei
.
Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado
.
Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei
.
Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:
.
«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida»

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 17 de julho de 2017




Hei-de Amar-te a Vida Inteira

Hoje quero dar-te o sol,
Dá-me então a lua cheia,
Debruçada em ondas mansas
que se estendem pela areia;

Hoje quero ser a chuva,
Pois então eu sou a terra,
Que o meu corpo é todo um fogo,
Em resposta à Primavera.

Hoje quero ser o vento,
num poema deslumbrado,
e mostrar-te sem ter medo
por que estou sempre ao teu lado;

Hoje quero dar-te tudo!
De uma vez e para sempre!
Quero ser como o guerreiro,
que a ti se entrega simplesmente.

Hoje quero ouvir-te os sonhos,
Sós... à luz de uma candeia,
Hoje quero ter o tempo,
De te amar a vida inteira...
Hoje quero dar-te a mão,
e com ela este recado:
Meu amor, a eternidade
São os momentos lado a lado...

Rodrigo Serrão

quinta-feira, 13 de julho de 2017


Eu sinto tonturas, Doutor
Tonturas ou vertigens?
Qual é a diferença?
Na tontura, sentimo-nos a rodar e o mundo está parado.
Na vertigem, quem roda é o mundo.
No meu caso, tudo roda, Doutor.

Eu e mundo bailamos juntos.

Mia Couto

quarta-feira, 12 de julho de 2017



Talvez o tempo, por si só, explique a cada um de nós o que é necessário para a felicidade. 
Talvez a felicidade seja sempre outra coisa que em cada idade se revela para que nos esforcemos de novo, continuamente. Há um amor guardado para cada fim. No limite, já não podemos adiá-lo. Temos de amar sem olhar a quem até que, olhando, o perfeito desconhecido nos seja familiar. Até que se invente uma família, tão pura e fundamental quanto outra qualquer. A felicidade, afinal, é possível, embora se esconda atrás de um mundo de tristezas. Mas nenhuma tristeza nos deve vencer. O destino de cada um é só este: acreditar, mesmo quando ninguém mais acredite.

Valter Hugo Mãe

quinta-feira, 29 de junho de 2017


Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhece-mo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,
.
se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas –
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós
.
o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 28 de junho de 2017


«Só quem ama ou nunca amou diz mal do amor.
O amor pode prender. 
O amor pode magoar. 
O amor pode distrair. 
O amor pode enlouquecer. 
O amor, para quem ama, pode fazer o que quiser. 
Que podemos nós fazer contra ele, mesmo que quiséssemos, 
mesmo que fôssemos capazes, que não queremos, nem somos?..."

Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, 27 de junho de 2017



Deveria haver na vida
um tempo
de férias do existir.

Assim,
quando o caos das horas
nos visitasse o relógio da alma,
uma calma inexistência
nos levaria a paragens
onde todo sonho é possível,

pois tudo o que existe
ainda está por nascer.

Nara Rúbia Ribeiro

quinta-feira, 22 de junho de 2017




“Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar”

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aranha faz sua casa de quê?
De lágrimas. Aquilo parece seda mas não é senão seu coração esfiapadinho.

Mia Couto

segunda-feira, 12 de junho de 2017



Sempre tive a impressão de que a música fosse apenas o extravasamento de um grande silêncio.

Marguerite Yourcenar

O meu amor não cabe num poema ― há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
os quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto ―
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura a mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer ― é um formigueiro
que acode aos lábios com a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente os segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome ― é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. nenhum poema
podia ser o chão a sua casa.

Maria do Rosário Pedreira

domingo, 11 de junho de 2017

Leva-me
Leva-me nas palavras,
Leva-me no silêncio
Ainda que não o permita o tempo,
Ainda que as flores tombem,
Ainda que me negue
E me cegue.
Leva-me
Na brisa do vento,
Na primavera em brasas,
Nas tuas mãos guardada,
Nos teus dedos fechada
E não me percas na inconstância
Da tua exuberância,
E eu volte criança.
Leva-me
Enquanto o sangue grita,
O coração palpita
E chora a distância
Da tua fragrância
A poesia aflita,
E eu reflicta.
Leva-me
No poema que resiste
E rasga esta folha triste
Que se soltou na revolta,
Abriga-me na tua chama
Antes que chova na folha solta
E não haja volta.
Leva-me...
Olha o sol, como brilha!
Faz-me tua pena,
Faz-me teu rabisco,
Leva-me na palavra escrita
Ao verso da tua alma
E guarda-me num poema.
Leva-me... só isso.


Luana Lua
"Ante o frio faz com o coração o contrário do que fazes com o corpo: Despe-o.
Quanto mais nu, mais ele encontrará o único agasalho possível - um outro coração."

Mia Couto

sexta-feira, 9 de junho de 2017


Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero
.
Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
.
E assim chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida...
.
Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
.
E assim chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida...
.
É a vida desse meu lugar
É a vida...

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém.

Manuel Alegre

quarta-feira, 7 de junho de 2017



- Perco a cabeça contigo...
- Então aprende a viver sem mim.
- Mas já experimentei viver sem ti! Muitas vezes...
- Quando?
- Esta manhã, por exemplo. 
Fui buscar pão à padaria ali em frente. 
Sozinho. 
Respirei sem partilhar o ar contigo, e o ar era insípido. 
Não estavas comigo. 
Vivia sem ti, sem o teu cheiro, sem sentir o teu coração quando bate. 
Estava perdido. 
Estava só nesta cidade. 
Durante vinte minutos, vivi sem ti...
- E o que isso te fez?
- Esqueci-me de trazer o pão...

Serge Gainsbourg
"Todos nós temos máquinas do tempo.
Algumas levam-nos para trás , são chamadas de memórias.
Outras levam-nos para frente, são chamadas sonhos."

Jeremy Irons

terça-feira, 6 de junho de 2017


Amantes que crescem um com os ideais do outro tornam-se 
mutuamente mais atraentes à medida que o tempo passa.

Richard Bach

sábado, 3 de junho de 2017


Boa Noite
"Que bom.
Estamos ambos a olhar para a mesma Lua do mesmo mundo. 
Estamos ligados à realidade através do mesmo fio. 
Só preciso de o ir puxando devagarinho para mim."

Haruki Murakami, in Sputnick meu amor

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O longe é um local que não existe!



Nós estamos onde estão nossos sentimentos, emoções que experimentamos pelo coração!
O amor e a amizade não conhecem a distancia nem o tempo e muito menos a separação pela distância física. O verdadeiro amor é "Etéreo"!
Nesta dimensão ou noutra .

quarta-feira, 31 de maio de 2017


Que amor é este amor?
Amar-te, só amar-te, e construir
amor e mais amor no amor já feito,
amor quase infinito, amor perfeito
amor em flor, florindo o que há-de vir.
E ao amar-te assim, quero sentir
que o meu amor por ti não está no peito:
percorre toda a pele, a carne, o leito,
regressa à boca a tempo de sorrir.
Que amor é este amor, esta vontade
de nunca te perder e de escrever-te
sabendo que és a própria liberdade?
E em cada dia que não posso ver-te
não tenho vida, tempo, nem idade,
não tenho nada que não seja ter-te.

Joaquim Pessoa

terça-feira, 30 de maio de 2017



Existência

Não sei se existo
ou porque existo
nem sei mesmo
se é importante saber.

Apenas sei que vivo
e que existir
e apenas não morrer
não é viver.


José Gabriel Duarte

segunda-feira, 29 de maio de 2017


“Toda a gentileza é uma declaração de amor.
Gentil é aquele que passa pela vida do outro,
toca-o com leveza onde ninguém mais pode ver”.

Mia Couto



O que é o inferno? - eu perguntei.
Amar
Sem Eco,
Pedir
Sem uma resposta,
Escrever
Sem ter leitores,
Dormir
Sem que ninguém encha os teus sonhos.


Ahmed Al-Shahawi

Hoje acordei com a dor das árvores;
estou de pé e o meu tronco sustém
o vazio e a solidão dos ramos
côncavos de espera,
impacientes de ternura.
Quero o bracejar dos pássaros,
ser refúgio dos ventos que me procuram,
tornar-me na folhagem que te abriga,
ser o ninho na tua noite, aberto
com a inquietação e a serenidade
dos rumores das aves mais tardias.
Não, desta vez não vou ...

Lília Tavares

domingo, 28 de maio de 2017



Segredos

Então? Já me guardaste no teu coração?
Ou que parte de mim vai ter de esperar?
Mas posso esperar nesta cadeira, neste canto
do mundo, neste mundo pequeno,
nesta galáxia cheia de luz, grandiosa em contraponto.
Fico imóvel até que me venhas buscar,
até que encontres os meus segredos
e abram as cortinas do meu ser. Sou pouco,
mas posso ser muito mais. Guarda-me
no teu coração! Deixa que tratarei do tráfego
que por lá houver, saberei acalmar os teus
movimentos, veias, artérias, aorta...
Nada mais me importa! Nada mais se exporta.
Vem, leva-me, guarda-me, guarda os meus
Segredos, são pouco valiosos, podem dizer,
mas são meus e não os partilho senão
com um bom coração!

Carlos Nuno Granja

quinta-feira, 25 de maio de 2017



O sentido da rua

Não há sombras no anoitecer desta rua
Nem caminho sem saída.
A luz nova que à noite se insinua
Dá ao caminho uma nova vida.
As pedras outrora tristes, são amenas
E as sombras do fim do dia
São sombras apenas.

A rua não vai a lado algum
E mesmo as ruas com dois sentidos
O sentido que têm é nenhum.
As pedras são passos esquecidos
As pedras são apenas o chão
Se parto, se fico
É minha decisão.

No fim da rua, em vez do fim
Há uma larga e verde avenida
Para subires e desceres de mim
Entre chegada e partida.
Os passos não são tristes,
Quando têm outra vontade
E tu existes.

Carlos Campos

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Noite que me sobra



Queria traduzir os silêncios
que te brotam entre os dedos,
enganar os compassos mortos,
soltar as vontades presas
e costuradas no parapeito do coração.

Queria beijar essa boca
que só em prova se sente,
chover no molhado do teu cheiro
e acender o fogo que sopra o amor
na ternura dos lençóis de cetim.

Queria fazer outro caminho
contigo, e no teu corpo,
soltar os poros da alma
e colher frutos de êxtase
num pomar de carinho.

Queria amanhecer contigo
e nas brechas do desalinho do tempo
dissolver o sono que me roubas,
porque… é tanta a noite
que me sobra nos braços!

António Carlos Santos

terça-feira, 23 de maio de 2017



tece-me a teia com que me enleias e prendes
enlaça os teus braços no meu pescoço
e sufoca-me de felicidade com a mesma força
de uma criança, amedrontada,
que agarra um peluche

abraça-me
com a intensidade de duas almas gémeas
separadas há mais de uma vida
e que se reconhecem neste preciso instante

abraça-me como se te pertencesse
como se sempre fosse tua
(como sempre soubeste que fui)
mesmo não sabendo quem eu era

adormece comigo nesta teia que o tempo tece.

Paulo Eduardo Campos

segunda-feira, 22 de maio de 2017


Que é amar senão inventar-se a gente noutros gostos e vontades? 
Perder o sentimento de existir e ser com delícia a condição de outro, 
com seus erros que nos convencem mais do que a perfeição?

Augustina Bessa Luís

quarta-feira, 17 de maio de 2017



“Sem um amor não vive ninguém.
Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. 
Mas tem de ser um amor. 
Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. 
Apenas tem de ser verdadeiro.”

Miguel Esteves Cardoso

domingo, 14 de maio de 2017



Pura alquimia, sem calendário...
Amor, esse pão inteligente com que
alimentamos a alma!

sexta-feira, 12 de maio de 2017



Dizem que tudo que acontece na vida é por alguma razão,
confesso que há dias em que eu gostaria de saber qual é...

quinta-feira, 11 de maio de 2017



Asa
Sonhei com o tempo
e eras vento
sonhei com o vento
e eras pomba
e voavas
levavas contigo
uma asa de mim.

José Gabriel Duarte


Presídio
Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco…?
.
E o ventre, inconscientemente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo…
.
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
.
Vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

David Mourão-Ferreira

quarta-feira, 10 de maio de 2017



Morre-se de amor...

«A escrita é, para mim, uma mulher com cheiro de mulher, indomável mas aberta a quem a ama e atenta a quem a respeita.»
...
«O ser humano reconstrói-se permanentemente e corrige-se constantemente, entre o desejo, a cinza, a paixão e a vontade. »
...
«Ter saudade é ter lastro, história, percurso. Anda por aí muita amnésia e muita ignorância.» 

Armando Baptista-Bastos

terça-feira, 9 de maio de 2017


À casa das palavras - sonhou Helena Villagra -, dirigiam-se os poetas. 
As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, 
esperavam os poetas e ofereciam-se-lhes, loucas de desejo a serem eleitas: 
elas rogavam aos poetas que as mirassem, que as cheirassem, 
que as tocassem, que as lambessem. 
Os poetas abriam os frascos, provavam palavras com o dedo e, então, 
relambiam os beiços de contentes ou torciam o nariz. 
Os poetas andavam à procura de palavras que não conheciam, 
e também buscavam palavras que conheciam mas haviam perdido. 
Na casa das palavras havia também a mesa das cores. 
Em grandes terrinas ofereciam-se as cores, e cada poeta servia-se da cor que lhe fazia falta: 
amarelo limão ou amarelo sol, azul de mar ou cinza fumo, vermelho lacre, vermelho sangue, vermelho vinho…

Eduardo Galeano

Fazes-me falta
Trago-te no riso enterrado, nas lágrimas que me lançaste,
escadas de incêndio para a sabedoria da felicidade, 
na pele escaldada pelo brilho da noite, depois do mar. 
Falámos demasiado para que eu recorde do que falámos, 
vivemos demasiadas vidas para que eu as possa separar. 
Para que eu me possa separar de ti. 
A memória tende a desfibrar-se, víscera velha, 
nesta condição a que chamarei apenas imaterial para não te assustar. 
Vejo tudo, continuamente, o espectáculo da vida interfere com os sentidos 
da minha deambulação ao passado.

Inês Pedrosa

quinta-feira, 4 de maio de 2017



Hoje volto à fronteira
Outra vez hei-de atravessar
É o vento que me manda
Que me empurra para a fronteira
E que apaga o caminho
Que atrás desaparece

quarta-feira, 26 de abril de 2017


Teu corpo-caleidoscópio abre-me a paleta
de um mundo de infinitas constelações
Arco-íris do meu regalo
Meu corpo de pedra encontra as fundações
que se fundem nos olhares
paralelos a um infinito sim
Minha lúcida ocorrência
Única como aquele eclipse que desfez as searas
ou o meu nascimento que se faz palavra a palavra
ou ainda aquele grande rio que se desfaz gota a gota
num oceano tão inverosímil como um sonho materializado
Estatelo-me que nem uma pedra em cima de mim mesmo
De pulo olho para o lado
Afinal é só estender o braço
Mas estás tão opaca que mal te reconheço
São estas as misteriosas aparências que se encontram nos estendais
dos pesadelos.

José Bernardes

terça-feira, 25 de abril de 2017


Tinha um cravo no meu balcão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
Só não dei o coração;
Mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não?

Eugénio de Andrade

domingo, 23 de abril de 2017




Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

Alberto Caeiro


quinta-feira, 20 de abril de 2017


PARA ANTÓNIO RAMALHO EANES

Visão 09.03.2017 crónica desta semana on-line


Quando cheguei a casa, na noite de vinte e oito de novembro, estava um senhor que eu não conhecia junto à porta fechada do prédio. Dirigiu-se a mim, disse da parte de quem vinha e entregou-me um envelope com uma coisa dura lá dentro: era uma caneta de tinta permanente que acompanhava uma carta. Eu vinha de velar o meu irmão na Basílica da Estrela e estava a sofrer muito. Queria estar com ele a sós para mais uma das nossas conversas privadas mas havia imensa gente e era impossível falarmos. Lembro-me de uma senhora me perguntar como me sentia, de lhe responder que me sentia azul às riscas amarelas, de ter de cumprimentar pessoas que conhecia e não conhecia, de fugir de um bando de fotógrafos cá fora, que aparecem sempre nestas alturas, mandados pelos jornais e as revistas e com quem não me posso zangar porque não estão ali por vontade própria mas para satisfazer a morbidez dos leitores, quando tudo o que me apetecia era despedir-me do meu irmão e, muito mais do que isso, ficarmos ali ambos em silêncio, que era a nossa maneira preferida de comunicar, depois de mais de vinte anos a morarmos no mesmo quarto. Mas não queria que mais ninguém escutasse o que nós não dizíamos e sentia-me exausto e vazio, zangadíssimo com Deus, claro, que felizmente tem as costas largas e me conhece bem, zangadíssimo com a crueldade da vida, zangadíssimo de ficar sem ele conforme já me zangara com a terrível partida do Pedro e a sensação atroz de ser um homem despovoado. Depois dos meus pais a vida leva-me agora os meus irmãos. Como se continua sem eles? Como se vive quando, uma a uma, nos tiram as raízes todas? Olhei para a bondade e a vulnerabilidade do Miguel, olhei para o Nuno que continuo a ver abraçado a um Pluto de borracha e que sempre me enterneceu porque, dentro de mim, continua a ser o meu bebé, sempre que o olho a primeira imagem é do Nuno pequenino, quase a morrer de peritonite, repetindo a chorar

(como a voz dele continua nítida em mim)

– Eu vou morrer e quero o meu paizinho

o Nuno que os cirurgiões amigos do meu pai não queriam operar com medo que a criança ficasse na mesa, que o Professor João Cid dos Santos aceitou operar e salvou

(muito obrigado, senhor Professor, sempre o admirei muito e gostei muito de si, sabia?)

e a criança, que não podia ingerir nada, a pedir

– Eu dou dinheiro a quem me der água

ele, o pobre, que não tinha um tostão. E curou-se, e cresceu, e agora bebe a água que lhe apetece. Cada vez que em casa dos meus pais eu o via beber água lembrava-me disto. Bom. Adiante. Portanto, ao chegar a casa na noite de vinte e oito de novembro estava um senhor que eu não conhecia junto à porta fechada do prédio, à minha espera, de quem se distinguiam mal as feições pela falta de luz, que me entregou um envelope com uma coisa dura lá dentro e me informou que vinha da parte do senhor general Ramalho Eanes, ou seja, traduzido para a minha língua, de um amigo meu. Eu sentia-me tonto e exausto para além da mágoa que trazia

(– Eu vou morrer e quero o meu paizinho)

e da dificuldade de me trazer ao colo, com uma data de passado em cima e, pelo menos para mim, há alturas em que o passado pesa insuportavelmente, para não mencionar o presente e o futuro

(se o houver)

que também me doem que se farta. Sentado na primeira cadeira que encontrei abri o envelope, que tinha dentro uma caneta Parker S1

(uma coisa que sempre quis ter e nunca tive)

e uma carta do general Ramalho Eanes, ou seja do António. Conhecemo-nos há bastantes anos, através do nosso comum irmão Ernesto Melo Antunes e aconteceu o milagre, tão raro, de ficarmos instantaneamente amigos de infância. Não há nada mais importante do que um amigo, como insistia o meu avô, e eu tive a felicidade imerecida de ter amigos excepcionais. A carta que acompanhava a Parker, e que obviamente não reproduzo aqui, é a mais bonita, sincera e digna que até hoje recebi e um dos mais fortes, senão o mais forte abraço que até hoje me deram. Li-a não sei quantas vezes, continuo, ainda hoje, a lê-la de tempos a tempos: se o meu irmão Nuno a tivesse recebido durante a convalescença da peritonite já não precisava de beber água.

(Artigo publicado na VISÃO 1252 de 2 de março de 2017)


A certa altura apercebi-me de uma enorme tristeza, comecei a sentir como um murro no estômago.Assim a acabei de ler ainda a digerir e para quem por vezes acha que já todas as lágrimas se esgotaram, sentir rolarem uns pingos de água salgada não me foi estranho.Conseguiu arrancar-me todas as forças.Há dias assim.

segunda-feira, 17 de abril de 2017


Os sonhos de Helena
Naquela noite, os sonhos faziam fila, querendo ser sonhados, 
mas Helena não podia sonhá-los todos, não dava. 
Um dos sonhos, desconhecido, se recomendava:
— Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai gostar. 
Faziam fila alguns sonhos novos, jamais sonhados, 
mas Helena reconhecia o sonho bobo, que sempre voltava, 
esse chato, e outros sonhos cómicos ou sombrios que eram 
velhos conhecidos de suas noites voadoras.

Eduardo Galeano

sábado, 15 de abril de 2017




segreda-me a canção dos dias
sem que nos oiça a noite terrível
e deixa que dance em mim a voz,
a voz azul que é o lugar onde
o mundo não pára de nascer.
segreda-me o teu nome, agora,
e farei de nós o amor, a constelação,
o sonho de uma estação sem morte

Vasco Gato

quinta-feira, 13 de abril de 2017


Às vezes sou mar revolto,
água sem dono,
às vezes Outono.
Tenho milhões de anos
de solidão dentro de mim.
O sopro de um fagote,
como se um vento,
uma música antiga
quase uma cantiga
a embalar cada momento,
e um pedaço de terra
que me diz que não lhe pertenço.

Raquel Serejo Martins

quarta-feira, 12 de abril de 2017



Fantástico!!!
Que forma poética de descrever as cores das flores.



Os ventos que às vezes tiram algo que amamos,
são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar…
Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e sim,
aprender a amar o que nos foi dado.

Pois tudo aquilo que é realmente nosso, nunca se vai para sempre…


Bob Marley


Mãe! dói-me o peito. 
Bati com o peito contra a estátua que tem em cima o verbo ganhar. 
Ainda não sei como foi. 
Eu ia tão contente! eu ia a pensar em ti e no verbo saber e no verbo ganhar. 
Estava tudo a ser tão fácil! 
Já estava a imaginar a tua alegria quando eu voltasse a casa com o 
verbo saber e o verbo ganhar, um em cada mão!
Dói-me muito o peito, Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!


Almada Negreiros

segunda-feira, 10 de abril de 2017



Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo,
pois a única falta que terá,
será desse tempo que infelizmente não voltará mais.’

Mário Quintana

sexta-feira, 7 de abril de 2017


Acordo com o teu nome nos
meus lábios — amargo beijo

esse que o tempo dá sem
aviso a quem não esquece.

Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 5 de abril de 2017



O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugenio de Andrade

Parto com os ventos.
A hora chegou em que o tempo não é tempo, pois é longo
e breve o perfume doce das searas maduras.
Idade dos voos e da fertilidade das abelhas
No ocre da terra que não é terra, pois é demorado
e curto o tempo que é tempo no teu colo
na espera das tardes esvaziadas de saudade.

Lília Tavares

sexta-feira, 24 de março de 2017



Porque hoje estou assim, pequenina.
Porque me apetecia mimo e o teu colo. 
Um beijo despreocupado e ausência de responsabilidades de gente crescida. 
Ficar sossegada a ouvir-te contares-me histórias. 
Esquecer-me da confusão do dia e simplesmente sorrir e ficar.
Às vezes também eu preciso de colo.

Rita Leston 

terça-feira, 21 de março de 2017

domingo, 19 de março de 2017


Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola.
 
Aí nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. 

Contam-me depois que é deste lado da noite que me 
ouvem gritar e que por isso me libertam bruscamente 
do cativeiro escuro desse sonho.

Não sabem que o pesadelo é a vida onde já não posso 
dizer o teu nome - porque a memória é uma fogueira 
dentro das mãos e tu onde estás também não me respondes.

Maria do Rosário Pedreira






sábado, 18 de março de 2017


Sou eu, não temas. Não me ouves quebrar
em ti todos os meus sentidos?
O meu sentir que asas veio a encontrar,
voa, branco, à volta da tua face sem ruídos.
Não vês a minha alma de silêncio vestida
mesmo frente a ti aparecida?
Não amadurece minha oração em flor
no teu olhar como numa árvore de suave odor?

Eu sou o teu sonho, se sonhador fores.
Sou a tua vontade, se velar quiseres
e apodero-me da magnificência sem par
e arredondo-me como um silêncio estrelar
sobre a estranha cidade do tempo a passar.

Rainer Maria Rilke


quinta-feira, 16 de março de 2017



O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Amar se Aprende Amando'

"Num único beijo saberás tudo aquilo que tenho calado."

Pablo Neruda